Fotocopiar cartas lacradas e esperar.
Imagine alguém que fotocopia, todo dia, as cartas lacradas que passam pelo correio. Hoje não consegue ler nenhuma: o lacre aguenta. Mas ele guarda tudo numa gaveta, porque sabe que um dia vai aparecer uma ferramenta que abre esse tipo de lacre. Quando ela aparecer, as cartas de anos atrás abrem junto.
É exatamente o que se chama "guardar hoje, abrir depois". O lacre é a criptografia de chave pública, a que combina a senha de cada conexão segura (o cadeado do navegador, o Pix, o Open Finance, a VPN). A ferramenta é um computador quântico grande o bastante, que ainda não existe.
Por isso o prazo que importa para a sua empresa não é o dia em que a máquina liga (o Q-Day). É esse dia menos o tempo que o seu dado precisa continuar secreto, menos o tempo que você leva para trocar as fechaduras. Um prontuário que precisa ficar secreto por 20 anos, cifrado hoje, já está do lado errado de qualquer estimativa.
Nem toda criptografia está na mira.
Existem dois tipos de fechadura. A de chave pública tem uma parte que todo mundo vê, como o cadeado aberto pendurado para quem quiser trancar, e outra, secreta, que abre. É a que combina senhas e assina documentos: RSA, ECDH, ECDSA e a secp256k1 das carteiras de Bitcoin. Um computador quântico grande consegue deduzir a parte secreta a partir da pública (o algoritmo de Shor). Essas quebram.
A de segredo combinado (AES-256 para cifrar, SHA-256 para a impressão digital) não tem parte pública para atacar. O melhor atalho quântico conhecido só corta a força pela metade, e AES-256 continua com folga. Essas aguentam.
Na prática, a migração é trocar as fechaduras de chave pública pelas novas que o NIST padronizou em 2024: ML-KEM para combinar a senha e ML-DSA para assinar, de preferência junto com as antigas durante a transição.
Ninguém sabe a data. As estimativas encurtaram.
Não existe medição do Q-Day, só estimativas, e elas vêm de gente com posições diferentes. O que mudou em 2026 foi a direção: dois estudos (um do Google, com qubits supercondutores, e um da Oratomic, com átomos neutros) indicaram que as curvas elípticas de 256 bits, as do HTTPS e do Bitcoin, caem com bem menos máquina do que se calculava.
- 2029Filippo Valsorda, engenheiro de criptografia (ex-time do Go, no Google), revisou em 2026 a própria posição de 2035 para 2029, citando executivos do Google que falam em 2029.estimativa
- 2030/31Governo dos EUA: em junho de 2026, a Casa Branca fixou 31/12/2030 para migrar a troca de chaves e 31/12/2031 para as assinaturas nos sistemas federais. Não é previsão de Q-Day: é prazo de obrigação.prazo regulatório
- ~2028BACEN: esperamos uma exigência do Banco Central antes de 2028, pelo peso do Open Finance e do Pix. É leitura nossa, não anúncio oficial.leitura nossa
- ?Os céticos lembram que o maior número já fatorado por computador quântico continua minúsculo e que um salto direto para RSA-2048 não é garantido. Mesmo eles, na discussão pública, concordam em começar a troca de chaves agora.contraponto
- 2026O que se move: o gargalo deixou de ser só contar qubits e passou a ser manter a máquina corrigindo os próprios erros por horas, sem parar. Em 2026 o Google mostrou correção de erros que se recalibra sozinha, e a Oratomic levantou US$ 300 milhões para uma máquina de cerca de 20 mil qubits.sinal
Trocar as fechaduras, por onde começar.
Da estimativa ao código: o prazo e o diagnóstico, a regulação que deve chegar, o inventário do que precisa mudar, a identidade de aparelhos que ficam décadas no campo e o que medimos ao cifrar telemetria com as fechaduras novas.
Calcular sem abrir: o mesmo tipo de matemática.
As fechaduras novas se apoiam num problema matemático, o dos reticulados, que também permite uma coisa que parece impossível: fazer contas sobre um dado que continua cifrado o tempo todo (FHE). Um hospital soma resultados sem ver pacientes; um banco calcula risco sem receber o dado do cliente. Medimos na nossa bancada o que já dá para usar e onde ainda custa caro.
Onde estão as suas fechaduras antigas?
Você conta que algoritmos usa e onde. Respondemos em até 24 horas úteis com um relatório curto: o que é crítico, o roteiro dos próximos 90 dias e uma estimativa de esforço. Sem apresentação de vendas.
- Conexões seguras e APIs (Open Finance, Pix, parceiros)
- Certificados com validade que entra na janela de risco
- Dados de guarda longa (saúde, contratos, jurídico)
- Chaves de acesso a servidores e tokens de login
- Carteiras e identidades em blockchain
O dia em que liga o primeiro computador quântico capaz de quebrar a criptografia de hoje. Só existem estimativas.
Gravar agora o tráfego cifrado para lê-lo no Q-Day. É por isso que o problema já começou.
Sistemas feitos para mudar de algoritmo por configuração. Serve para migrar agora e de novo, se preciso.
Onde isso pode estar errado.
As datas são estimativas
Nenhum número de Q-Day nesta página é medição nossa. As fontes discordam entre si e mudam; mostramos de quem é cada uma.
As fechaduras novas são jovens
De tempos em tempos aparece uma alegação de quebra dos reticulados; a de 2024 caiu em cerca de oito dias. Em julho de 2026, um modelo de IA achou o ataque que tirou o HAWK, uma assinatura candidata, do processo do NIST; os padrões ML-KEM e ML-DSA não foram afetados. Por isso recomendamos migrar com as duas fechaduras juntas.
Assinatura é mais difícil que troca de chaves
As assinaturas novas são bem maiores. Em certificados, cartões e canais pequenos (satélite, sensores), elas nem sempre cabem, e a migração da identidade anda atrás.
BACEN em 2028 é leitura nossa
Não há resolução publicada. Explicamos o raciocínio na página própria, para você concordar ou discordar com base.
← stickybit.com.br · Glossário · Diagnóstico em 24 h
- Filippo Valsorda, "CRQC timeline" (2026) e a discussão no Hacker News.
- Google Research: correção de erros que se recalibra (Nature, 2026; arXiv 2511.08493). Oratomic: rodada de US$ 300 milhões (TechCrunch, 10 jul 2026).
- NIST FIPS 203 (ML-KEM), 204 (ML-DSA) e 205 (SLH-DSA), agosto de 2024. Casa Branca: prazos de migração federal de 22 jun 2026.
- HAWK: discussão pública no pqc-forum do NIST, julho de 2026. Yilei Chen (2024): alegação de quebra de reticulados retirada após erro encontrado.
- Medições de FHE: bancada própria (Apple M2, Lattigo v6.2.0), ver A fronteira do FHE.