A carta vai no envelope, não na caneta.
Pense numa carta registrada. Você escreve a carta com qualquer caneta e só depois põe no envelope, cola e lacra. Ninguém mistura a tinta com o lacre, porque aí ninguém mais consegue conferir nem a carta nem o lacre.
Fizemos o mesmo com a telemetria. O codec (o programa que comprime) continua exatamente como era: dá o mesmo arquivo em qualquer máquina e pode ser auditado byte a byte. A cifra mora no envelope, que embrulha o que o codec produz. Criptografia no envelope, nunca no codec.
E há um detalhe que decide tudo: a tolerância (o "nunca erra mais que X" que dá valor ao arquivo) vai dentro do lacre de cada bloco. Se alguém no caminho trocar esse número para fazer um arquivo ruim parecer bom, o lacre deixa de conferir.
Três camadas, e só duas precisam de fechadura nova.
Blocos de medições. Cada bloco (um trecho que se abre sozinho) é cifrado com AES-256 e recebe um selo de 16 bytes. Se um pacote se perde no rádio, perde-se só aquele bloco; e dá para abrir um trecho do meio sem abrir o resto. O AES-256 já resiste a computador quântico: o melhor ataque conhecido (Grover) só reduz a segurança pela metade, o que ainda deixa uma margem enorme.
Chave da sessão. A chave que cifra os blocos nasce de uma troca dupla: X25519, a fechadura de hoje, junto com ML-KEM-768, a nova troca de chaves padronizada pelo NIST (FIPS 203). Se uma das duas cair, a outra segura. Custa 2.304 bytes por troca de chave, pagos uma vez por sessão, não por bloco.
Manifesto assinado. A lista do que foi enviado (casos, canais, tolerâncias) é assinada com ML-DSA-65, a nova assinatura digital do NIST (FIPS 204): 3.309 bytes por sessão. Com ela, quem assinou não pode negar depois a tolerância que declarou.
O sucesso da compressão é o que expõe o selo.
Em compressão comum, de 2 a 5 vezes, 16 bytes por bloco não aparecem na conta. O TUBE não trabalha nesse regime: quanto mais ele comprime, menor fica cada bloco, e maior fica o peso relativo do selo.
Na prática: num medidor de energia o selo acrescenta 4%; num drone, quase dobra o arquivo; no satélite, o bloco médio tem uns 12 bytes de dado, menos que o próprio selo de 16. Em todos os 15 casos, o arquivo decifrado foi aberto e a tolerância conferida: a garantia atravessa o envelope intacta.
| Caso | Custo do selo | Leitura |
|---|---|---|
| Medidores de energia (AMI) | +4,4% | bloco gordo: o selo some |
| Eletrocardiograma real | +10,3% | dado denso: ainda discreto |
| Robô real (ROS 2) | +16,5% | 21× de compressão |
| Captura de movimento (CMU) | +17,3% | 22× de compressão |
| Braço robótico ALOHA | +28,8% | 37×; blocos magros |
| Drone (PX4) | +97,6% | 123×: quase dobra o arquivo |
| Satélite | +126,1% | bloco médio de ~12 B, menor que o selo |
| Robótica (caso extremo) | +172,2% | o selo custa 1,7× o dado |
O lacre tem que ter o tamanho do que se perde.
Selar cada bloco parecia a escolha óbvia, e a medição mostrou que só é correta quando o bloco é gordo. O certo é casar o lacre com a unidade de perda do link: se o rádio perde pacotes inteiros, sela-se o pacote (um lote de blocos), com um selo só. O selo se dilui no lote, e a perda continua limitada ao que o link já perderia de qualquer jeito.
Esta variante é a resposta de desenho ao achado. Ainda não foi medida: o número honesto dela é o próximo passo, não uma promessa desta página.
Link caro, hostil e longo.
Faz sentido
- Satélite e downlink de órbita: dados que ficam anos em trânsito e em arquivo, sob gravação de quem escuta o céu.
- Rádio de campo e frota: telemetria de máquinas, drones e robôs que atravessa redes de terceiros.
- Auditoria regulada: quando a tolerância é contrato e precisa chegar íntegra ao auditor.
Não precisa
- Dado que vale por minutos: se ninguém se importa com ele em 10 anos, a fechadura de hoje basta.
- Rede fechada e curta: dentro de um único prédio, sem gravação externa, o risco é outro.
- Compressão modesta: a 2–5×, selar por bloco funciona sem o problema desta página.
Um trecho da série que se abre sozinho, sem precisar do resto. É a unidade que o TUBE comprime, e aqui a unidade que se cifra.
Os 16 bytes que provam que o bloco chegou sem mudança. Se um bit mudar no caminho, o selo não confere e o bloco é recusado.
Duas fechaduras ao mesmo tempo, a de hoje e a nova. Para abrir, é preciso quebrar as duas.
Onde isso pode estar errado.
O tamanho fala
A cifra esconde o conteúdo, não o tamanho. Como o TUBE só manda dado quando o sinal muda, quem observa o link vê quando o robô se mexe ou o satélite manobra, sem decifrar nada. Enchimento resolve, e custa exatamente o que a compressão economizou. Não medido; declarado.
Protótipo, não produto
Os números vêm de um protótipo com a volta completa conferida nos 15 casos, não de uma implementação endurecida e auditada por terceiros.
O selo por pacote não foi medido
É a resposta de desenho ao achado. Até ser medida, vale como hipótese.
Fechaduras novas são novas
ML-KEM e ML-DSA se apoiam num problema matemático diferente, estudado há menos tempo. Alegações de ataque aparecem e precisam de verificação da comunidade; por isso a troca de chaves é híbrida: com X25519 junto, uma quebra do ML-KEM não abre a sessão para quem não tem computador quântico.
Comprimida, cifrada e auditável, as três de uma vez.
Se a sua telemetria atravessa um link hostil e precisa continuar auditável do outro lado, esse é o problema que estamos medindo. O primeiro passo é o TUBE: você manda um arquivo de telemetria e recebe os números em uma semana, sem instalar nada.
← Pós-quântico · stickybit.com.br
- Protótipo tubesec no repositório de telemetria da Stickybit (
go run . -sec): envelope, bytes por camada e custo do selo nos 15 casos do teste do TUBE. - NIST FIPS 203 (ML-KEM) · NIST FIPS 204 (ML-DSA), agosto de 2024.
- Página anterior: "Criptografia pós-quântica em telemetria 100× comprimida" (
/tubesec-pqc/).