O carimbo que perde o valor de prova.
Um comprovante de Pix é assinado digitalmente. A assinatura serve como um carimbo de cartório: anos depois, numa contestação ou num processo, ela prova que aquela transferência aconteceu, daquele jeito, naquela hora.
Quando o computador quântico existir, esse carimbo corre dois riscos. Para trás: quem recuperar a chave privada a partir da pública pode fabricar comprovantes "antigos" que parecem legítimos, e aí nenhum comprovante antigo prova mais nada sozinho. Para frente: toda assinatura nova precisa sair já com a fechadura nova.
O segundo risco se resolve trocando o algoritmo de assinatura (a ML-DSA, padrão do NIST). O primeiro é mais difícil: exige reassinar ou selar com carimbo de tempo o acervo antigo antes que a chave caia. Nada disso é rápido, e nada disso começa sem uma lista do que existe.
Onde a exigência deve chegar primeiro.
Open Finance: a maior superfície do país
Extratos, saldos, investimentos e crédito trafegam entre instituições com o cadeado de conexão de hoje (TLS com curva elíptica). Quem gravar essas conexões agora poderá abri-las quando o computador chegar: é o "guardar hoje, abrir depois".
Exemplo: o extrato de 12 meses compartilhado hoje com uma fintech, com consentimento, fica legível para quem gravou a conexão.
Pix e DICT: assinaturas que precisam valer por anos
As instituições se autenticam no diretório de chaves Pix com certificados ICP-Brasil (curva elíptica ou RSA), e consultas e comprovantes são assinados. O valor de prova dessas assinaturas precisa durar anos.
Exemplo: um comprovante contestado em 2031 precisa ainda provar que a transferência de 2026 aconteceu.
LGPD: "medidas técnicas aptas"
O artigo 46 da LGPD pede medidas técnicas aptas a proteger dados pessoais. Com os padrões do NIST publicados em 2024 e especialistas alertando em público, continuar cifrando dado de guarda longa só com a fechadura antiga fica difícil de defender depois.
Exemplo: a pergunta de uma ação coletiva em 2030 será "vocês sabiam em 2026 e o que fizeram?".
Drex: criptografia sofisticada, mas clássica
O real digital usa provas de conhecimento zero para dar confidencialidade entre participantes, sobre curvas elípticas. Não existe uma versão pós-quântica pronta para trocar no lugar: migrar o Drex é repensar a criptografia do projeto, e isso arrasta toda a cadeia de fornecedores.
Exemplo: um fornecedor de custódia de um banco participante precisa estar pronto antes do anúncio, não depois.
Os outros bancos centrais já se mexeram
Pelo nosso levantamento de abril de 2026, o BIS, o BCE, o Fed, a autoridade de Singapura e o Banco do Canadá já publicaram estudos, pilotos ou orientações sobre o tema. O BACEN ainda não tinha documento público específico.
Exemplo: um regulador reconhecido como tecnicamente forte dificilmente fica por último no G20.
Quem já se mexeu.
| Autoridade | O que fez | Situação |
|---|---|---|
| BIS (banco dos bancos centrais) | Estudo sobre criptografia pós-quântica para bancos centrais | publicado em 2024 |
| BCE (zona do euro) | Piloto com o Bundesbank e o Banque de France | ativo em 2024–2025 |
| Federal Reserve (EUA) | Força-tarefa e orientações para bancos | em desenvolvimento |
| MAS (Singapura) | Orientação sobre prontidão quântica para instituições financeiras | publicado em 2024 |
| Banco do Canadá | Estudo técnico sobre migração na liquidação | publicado em 2023 |
| BACEN (Brasil) | Nenhum documento público específico | pendente em abr/2026 |
Levantamento da versão original desta análise (abril de 2026). Antes de citar, confira cada item na fonte primária de cada regulador.
Quando a regra deve chegar.
O BACEN costuma adotar recomendações internacionais com um atraso de 18 a 24 meses, e o Open Finance levou cerca de 18 meses da consulta à resolução. Com esse ritmo, e com o estudo do BIS em 2024, a projeção abaixo é a nossa leitura.
Ela pode se antecipar de 6 a 12 meses se houver um vazamento criptográfico grande, um anúncio de avanço quântico ou uma regra apressada de outro regulador do G20. Pode atrasar também, mas cada ano de atraso encurta o prazo de quem ainda não começou.
| Quando | O que esperamos |
|---|---|
| 2º–3º tri 2026 | Comunicado técnico do BACEN sobre riscos emergentes em criptografia, sem obrigação. |
| 4º tri 2026 | Consulta pública sobre inventário criptográfico nas instituições. |
| 1º–2º tri 2027 | Resolução com cronograma de inventário obrigatório e plano de migração. |
| 2º semestre 2027 | Certificados novos com suporte híbrido. |
| 2028 | Troca obrigatória nos canais críticos do Open Finance e do DICT. |
| 2029 | Fim das fechaduras antigas em serviços novos; o computador quântico entra na janela de possibilidade. |
Quatro coisas antes do primeiro ofício.
Inventário criptográfico
Onde aparecem RSA, curvas elípticas e Diffie-Hellman: certificados, chaves de SSH, tokens assinados, certificados ICP-Brasil, chaves de API, cofres de chaves (HSMs), módulos de pagamento. Automatizado, não uma planilha.
Nota de exposição
Para cada sistema, quanto tempo o dado precisa ficar secreto: 7 anos de transação, 20 de prontuário, contratos válidos em 2040. O que precisa ficar secreto depois de 2029 já está exposto hoje.
Troca híbrida
Combinar a chave com a fechadura antiga e a nova (ML-KEM) ao mesmo tempo, como Google, Cloudflare e o iMessage já fazem. Protege contra o computador quântico e contra um defeito na fechadura nova.
Governança das chaves
Quais chaves existem, onde estão, quem acessa, quando giraram, com que algoritmo e validade. A maioria das instituições não sabe, e essa é a primeira dívida a pagar.
O inventário e a nota de exposição em 24 horas.
O diagnóstico gratuito entrega o inventário crítico, um roteiro de 90 dias e uma estimativa de investimento, em PDF.
A lista de onde há criptografia e de que tipo. Sem ela não se troca nada, e é o que o regulador deve pedir primeiro.
A capacidade de uma assinatura antiga continuar provando algo. Some quando a chave dela pode ser recuperada.
Duas fechaduras na mesma porta: a antiga e a nova. Abrir uma só não basta.
Onde isso pode estar errado.
É uma projeção
Nenhuma data desta página foi anunciada pelo BACEN. Ela é a nossa leitura de precedentes, e pode errar para os dois lados.
O ritmo de 18 a 24 meses é observação nossa
Tiramos de casos anteriores (Basileia, Open Finance, LGPD no setor financeiro). Não é regra escrita.
O levantamento internacional precisa de conferência
A tabela de outros reguladores vem da versão de abril de 2026 desta análise. Confira na fonte primária antes de usar em documento oficial.
24 a 36 meses é para instituição de porte
Uma instituição pequena, com menos sistemas, pode trocar mais rápido. Uma grande, com legado e fornecedores, pode levar mais.
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- Versão original desta análise: Andrey Andrade, Stickybit, 6 de abril de 2026; revista em setembro de 2026.
- Filippo Valsorda, "CRQC timeline", 2026.
- NIST: FIPS 203 (ML-KEM) e FIPS 204 (ML-DSA), agosto de 2024.
- LGPD, Lei 13.709/2018, art. 46.
- Documentos de BIS, BCE, Federal Reserve, MAS e Banco do Canadá citados conforme o levantamento de abril de 2026 (conferir na fonte primária).