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Caso · medidor inteligente, glicose, água, GPS

"Aumente a tolerância e ganhe privacidade." Medimos. Não é assim.

A ideia é sedutora: se o arquivo comprimido perde detalhe, bastaria afrouxar a tolerância para esconder a rotina de quem mora na casa. Testamos em cinco canais reais. A promessa cai em quatro, e no quinto só sobrevive com três ressalvas que a inviabilizam como estava escrita.

Medido em cinco bases públicas
Espécime · o botão da tolerância numa casa real (energia, 1 minuto)
acerto do espião sobre a rotinaacerto sobre os eletrodomésticos grandes

0acerto sobre a rotina
0sobre eletrodomésticos grandes
0a conta de luz

Medido: casa real do conjunto AMPds2 (Canadá), 730 dias, 70.080 janelas. O "espião" é deliberadamente preguiçoso: uma conta só, sem treino. Um espião de verdade enxerga pelo menos isso.

No dia a dia

Um portão de ruído em volta do sinal.

O TUBE desenha uma faixa de tolerância em volta do sinal e só grava quando o sinal sai dela. Funciona como o portão de ruído de um estúdio: o zumbido baixo fica calado, e a voz passa. Numa casa, a geladeira ciclando fica dentro da faixa; a chaleira de 3 kW rompe e é gravada.

Daí a promessa: se abrir a faixa apaga detalhe, apagaria também o hábito, como a hora em que você acorda, toma banho ou sai de casa. Um número só, que já está no contrato de faturamento, cuidaria de duas coisas: a conta certa e a rotina protegida.

Era bom demais. O problema é o que sobra: o compressor guarda por último as maiores surpresas, e a maior surpresa de uma casa é justamente o evento humano mais fácil de reconhecer.

faixa de tolerância: aqui dentro, silêncio geladeira: dentro da faixa chaleira 3 kW: rompe e é gravada registro · registro · registro tempo →
Dentro da faixa, silêncio. Cada vez que o sinal rompe a faixa, um registro é gravado, e cada registro é um fato sobre a casa.
Como se mede uma promessa

Três peças, e o critério de derrota escrito antes.

Cada canal foi medido do mesmo jeito. Antes de rodar qualquer número, escrevemos no repositório o que teria de acontecer para a ideia morrer. Quando uma previsão nossa caiu (e caiu), ficou registrado.

O contrato: o que o canal precisa entregar. A soma mensal da fatura (classe B do INMETRO: 1%), o tempo de glicose na faixa-alvo, os litros do mês, a distância da viagem. Com um recibo de soma de uns 2 bytes por dia, o contrato fica exato em qualquer tolerância.

O espião preguiçoso: uma conta só, sem treino, sem modelo, como a variação do consumo em 15 minutos ou a fração do consumo feita de dia. Se ele já enxerga, espiões de verdade enxergam mais. Nosso número é sempre um piso do vazamento, nunca um teto.

O gabarito escondido: a verdade que o espião nunca vê (a lavadora estava ligada? o paciente comeu?). O placar é o acerto do espião: 0,5 é cara ou coroa; 1,0 é acertar sempre.

o contratoa fatura, os litros,a distânciao espiãopreguiçosouma conta, semtreinoo gabaritoa verdade que elenão vê
As três peças de cada medição: o que o canal promete entregar, um espião deliberadamente simples, e a verdade escondida que decide quem acertou.
O único canal onde o botão existe

E ele gira para o lado errado primeiro.

Numa casa real medida minuto a minuto, o espião parte de 0,699 sem compressão. Três coisas acontecem quando a tolerância sobe, e nenhuma estava no folheto:

Dentro do que a fatura aguenta, nada muda. No maior valor que o faturamento tolera sem recibo (uns 50 W para a classe B), o acerto fica em 0,707. Quem salva o contrato é o recibo de 2 bytes por dia, e só então o botão fica livre para girar.

Uma tolerância moderada ajuda o espião. Entre 100 e 250 W, o acerto sobe para 0,719: a compressão apaga o tremor dos aparelhos automáticos e entrega ao espião um sinal mais limpo.

O piso é feito de eletrodomésticos grandes. Mesmo a 5.000 W, com a casa inteira reduzida a uns 100 bits por dia, os aparelhos acima de 2 kW continuam com acerto de 0,793.

E a curva não é do método, é da casa. Repetimos em 6 casas do Reino Unido esperando achar uma fórmula ("para casas assim, use tolerância tal"). A diferença entre as curvas deu 0,71, sete vezes acima do limite que tínhamos fixado para existir fórmula. Em duas casas, comprimir mais aumentou a ligação do que sobra com a chaleira: a compressão destila o evento humano.

a fatura dispensa recibo0,50501002505001000250050000,4890,719rotinaaparelhos > 2 kWtolerância (W) →
A curva real do botão (AMPds2, 730 dias). Na faixa sombreada, onde a fatura dispensa recibo, nada muda. Depois a curva sobe antes de cair, e a linha tracejada mostra o piso: os aparelhos grandes atravessam qualquer tolerância.
A descoberta estrutural

A fatura e a rotina moram na mesma caixa.

Em 200 casas de Londres, medidas a cada 30 minutos (a resolução que os medidores brasileiros vão reportar), o espião tenta algo simples: separar dia útil de fim de semana pela fração do consumo feita de dia. Sem compressão, 1 casa em cada 4 é identificável. Girando a tolerância até acima da própria leitura típica, o acerto mediano vai de 0,587 para 0,572. Nada.

O motivo é de álgebra, não de acaso. A rotina é uma soma (a fração diurna do consumo). A compressão limita o erro de cada leitura, e somas atravessam a tolerância quase intactas. É exatamente por isso que a fatura sobrevive a qualquer tolerância. O mecanismo que preserva a conta preserva o vazamento.

O botão da amplitude só alcança o que mora nos detalhes finos (picos, ciclos, variações). O que mora em somas e médias ele nunca toca.

detalhes finospicos da chaleira, ciclos, transições o botão APAGA isto (com curva por casa) somas e médias
a fatura do mês, a fração diurna (a rotina), a velocidade média
o botão NUNCA toca isto ✕
As duas caixas. O botão da tolerância só alcança a caixa de cima. Contrato e segredo precisam morar em caixas diferentes para o botão proteger alguma coisa, e isso só acontece no canal de energia a 1 minuto.
Os outros três canais

Glicose, água e GPS: a mesma sentença.

Glicose contínua. Em 117 internações com diário de refeições, detectar refeição parte de acerto 0,798 e ainda dá 0,640 quando a tolerância (50 mg/dL) já destruiu o contrato clínico: 96,8% do tempo-na-faixa fica indecidível. Uma refeição sobe 50 a 150 mg/dL e atravessa qualquer tolerância útil. A boa notícia: a hipoglicemia é detectada em 100% dos casos em qualquer tolerância, porque o compressor guarda por último exatamente o que a medicina exige.

Água. Num apartamento com cada torneira medida, o chuveiro continua reconhecível (0,963) quando a descarga já caiu para 0,640. Os eventos íntimos só ficam irreconhecíveis numa tolerância em que a soma diária de litros já erra 100%: a privacidade chega junto com a morte do contrato. De brinde, nosso próprio teste de sanidade achou o agregado publicado do conjunto corrompido na fonte.

GPS. Em 973 trechos rotulados (a pé ou motorizado), o modo de transporte mora na velocidade média, que a compressão preserva. Com tolerância de 10 m/s, a distância contratada já erra 62% e o espião ainda acerta 0,923. Quem vende "telemática com privacidade por reduzir resolução" vende um produto que não existe.

CanalContratoSegredoO botão da tolerância
Energia · 1 minsoma do mêsatividade finafunciona, mas por casa, com piso, e só com recibo
Energia · 30 minsoma do mêsrotina semanalnão faz nada: mesma caixa
Glicosetempo na faixa-alvorefeiçãonão protege: o contrato morre primeiro
Águalitros por diaeventos íntimosnão protege: morrem juntos
GPSdistânciamodo de transportenão protege: a distância morre antes, sempre
O que sobrou de pé

O laudo que ninguém fornece.

A promessa morreu; o instrumento que a matou é o produto. Para um canal comprimido com tolerância X, o laudo diz com número: o que o contrato garante (soma, tempo na faixa, distância, com recibo assinado no GIRDER), o que vaza e para qual espião, e o que esse mecanismo nunca vai proteger.

O gancho jurídico é direto. Pelo artigo 12 da LGPD, dado "anonimizado" só escapa da lei se não puder ser revertido por meios razoáveis. Um espião de uma conta só, sem treino, que reconhece rotina com acerto de 0,80, é a definição prática de "meio razoável". A curva de acerto por tolerância é o número que decide o artigo 12, e hoje essa afirmação é feita no adjetivo.

Para quem quer apagar rotina, o conselho é girar outro botão: o do tempo. Reportar somas diárias com recibo, em vez do sinal minuto a minuto.

Três palavras desta página
Acerto do espião

A nota de um detector que tenta adivinhar a rotina: 0,5 é chutar, 1,0 é acertar sempre. No original, AUC.

Recibo de soma

Uns 2 bytes por dia com a soma exata. Deixa a fatura certa em qualquer tolerância.

Anonimizado

Na LGPD, dado que não pode ser revertido por meios razoáveis. É uma afirmação que se mede, não um adjetivo.

Limites

Onde isso pode estar errado.

Piso, não teto

Nosso acerto é o de um espião simples e declarado. Espiões melhores enxergam mais. Nunca é garantia de privacidade.

Números não generalizam, leis sim

Os valores valem para estes conjuntos. As leis estruturais (somas atravessam a tolerância) valem em qualquer lugar, porque são álgebra.

Precisa de garantia matemática?

Então a resposta honesta é privacidade diferencial ou agregação no tempo, com o nosso recibo certificando o contrato.

Uma previsão nossa caiu

No GPS, prevíamos que metade da variância bastaria; caiu. Está registrado no repositório, com o número.

Ver também

← Telemetria certificada · stickybit.com.br

Fontes