Um portão de ruído em volta do sinal.
O TUBE desenha uma faixa de tolerância em volta do sinal e só grava quando o sinal sai dela. Funciona como o portão de ruído de um estúdio: o zumbido baixo fica calado, e a voz passa. Numa casa, a geladeira ciclando fica dentro da faixa; a chaleira de 3 kW rompe e é gravada.
Daí a promessa: se abrir a faixa apaga detalhe, apagaria também o hábito, como a hora em que você acorda, toma banho ou sai de casa. Um número só, que já está no contrato de faturamento, cuidaria de duas coisas: a conta certa e a rotina protegida.
Era bom demais. O problema é o que sobra: o compressor guarda por último as maiores surpresas, e a maior surpresa de uma casa é justamente o evento humano mais fácil de reconhecer.
Três peças, e o critério de derrota escrito antes.
Cada canal foi medido do mesmo jeito. Antes de rodar qualquer número, escrevemos no repositório o que teria de acontecer para a ideia morrer. Quando uma previsão nossa caiu (e caiu), ficou registrado.
O contrato: o que o canal precisa entregar. A soma mensal da fatura (classe B do INMETRO: 1%), o tempo de glicose na faixa-alvo, os litros do mês, a distância da viagem. Com um recibo de soma de uns 2 bytes por dia, o contrato fica exato em qualquer tolerância.
O espião preguiçoso: uma conta só, sem treino, sem modelo, como a variação do consumo em 15 minutos ou a fração do consumo feita de dia. Se ele já enxerga, espiões de verdade enxergam mais. Nosso número é sempre um piso do vazamento, nunca um teto.
O gabarito escondido: a verdade que o espião nunca vê (a lavadora estava ligada? o paciente comeu?). O placar é o acerto do espião: 0,5 é cara ou coroa; 1,0 é acertar sempre.
E ele gira para o lado errado primeiro.
Numa casa real medida minuto a minuto, o espião parte de 0,699 sem compressão. Três coisas acontecem quando a tolerância sobe, e nenhuma estava no folheto:
Dentro do que a fatura aguenta, nada muda. No maior valor que o faturamento tolera sem recibo (uns 50 W para a classe B), o acerto fica em 0,707. Quem salva o contrato é o recibo de 2 bytes por dia, e só então o botão fica livre para girar.
Uma tolerância moderada ajuda o espião. Entre 100 e 250 W, o acerto sobe para 0,719: a compressão apaga o tremor dos aparelhos automáticos e entrega ao espião um sinal mais limpo.
O piso é feito de eletrodomésticos grandes. Mesmo a 5.000 W, com a casa inteira reduzida a uns 100 bits por dia, os aparelhos acima de 2 kW continuam com acerto de 0,793.
E a curva não é do método, é da casa. Repetimos em 6 casas do Reino Unido esperando achar uma fórmula ("para casas assim, use tolerância tal"). A diferença entre as curvas deu 0,71, sete vezes acima do limite que tínhamos fixado para existir fórmula. Em duas casas, comprimir mais aumentou a ligação do que sobra com a chaleira: a compressão destila o evento humano.
A fatura e a rotina moram na mesma caixa.
Em 200 casas de Londres, medidas a cada 30 minutos (a resolução que os medidores brasileiros vão reportar), o espião tenta algo simples: separar dia útil de fim de semana pela fração do consumo feita de dia. Sem compressão, 1 casa em cada 4 é identificável. Girando a tolerância até acima da própria leitura típica, o acerto mediano vai de 0,587 para 0,572. Nada.
O motivo é de álgebra, não de acaso. A rotina é uma soma (a fração diurna do consumo). A compressão limita o erro de cada leitura, e somas atravessam a tolerância quase intactas. É exatamente por isso que a fatura sobrevive a qualquer tolerância. O mecanismo que preserva a conta preserva o vazamento.
O botão da amplitude só alcança o que mora nos detalhes finos (picos, ciclos, variações). O que mora em somas e médias ele nunca toca.
Glicose, água e GPS: a mesma sentença.
Glicose contínua. Em 117 internações com diário de refeições, detectar refeição parte de acerto 0,798 e ainda dá 0,640 quando a tolerância (50 mg/dL) já destruiu o contrato clínico: 96,8% do tempo-na-faixa fica indecidível. Uma refeição sobe 50 a 150 mg/dL e atravessa qualquer tolerância útil. A boa notícia: a hipoglicemia é detectada em 100% dos casos em qualquer tolerância, porque o compressor guarda por último exatamente o que a medicina exige.
Água. Num apartamento com cada torneira medida, o chuveiro continua reconhecível (0,963) quando a descarga já caiu para 0,640. Os eventos íntimos só ficam irreconhecíveis numa tolerância em que a soma diária de litros já erra 100%: a privacidade chega junto com a morte do contrato. De brinde, nosso próprio teste de sanidade achou o agregado publicado do conjunto corrompido na fonte.
GPS. Em 973 trechos rotulados (a pé ou motorizado), o modo de transporte mora na velocidade média, que a compressão preserva. Com tolerância de 10 m/s, a distância contratada já erra 62% e o espião ainda acerta 0,923. Quem vende "telemática com privacidade por reduzir resolução" vende um produto que não existe.
| Canal | Contrato | Segredo | O botão da tolerância |
|---|---|---|---|
| Energia · 1 min | soma do mês | atividade fina | funciona, mas por casa, com piso, e só com recibo |
| Energia · 30 min | soma do mês | rotina semanal | não faz nada: mesma caixa |
| Glicose | tempo na faixa-alvo | refeição | não protege: o contrato morre primeiro |
| Água | litros por dia | eventos íntimos | não protege: morrem juntos |
| GPS | distância | modo de transporte | não protege: a distância morre antes, sempre |
O laudo que ninguém fornece.
A promessa morreu; o instrumento que a matou é o produto. Para um canal comprimido com tolerância X, o laudo diz com número: o que o contrato garante (soma, tempo na faixa, distância, com recibo assinado no GIRDER), o que vaza e para qual espião, e o que esse mecanismo nunca vai proteger.
O gancho jurídico é direto. Pelo artigo 12 da LGPD, dado "anonimizado" só escapa da lei se não puder ser revertido por meios razoáveis. Um espião de uma conta só, sem treino, que reconhece rotina com acerto de 0,80, é a definição prática de "meio razoável". A curva de acerto por tolerância é o número que decide o artigo 12, e hoje essa afirmação é feita no adjetivo.
Para quem quer apagar rotina, o conselho é girar outro botão: o do tempo. Reportar somas diárias com recibo, em vez do sinal minuto a minuto.
A nota de um detector que tenta adivinhar a rotina: 0,5 é chutar, 1,0 é acertar sempre. No original, AUC.
Uns 2 bytes por dia com a soma exata. Deixa a fatura certa em qualquer tolerância.
Na LGPD, dado que não pode ser revertido por meios razoáveis. É uma afirmação que se mede, não um adjetivo.
Onde isso pode estar errado.
Piso, não teto
Nosso acerto é o de um espião simples e declarado. Espiões melhores enxergam mais. Nunca é garantia de privacidade.
Números não generalizam, leis sim
Os valores valem para estes conjuntos. As leis estruturais (somas atravessam a tolerância) valem em qualquer lugar, porque são álgebra.
Precisa de garantia matemática?
Então a resposta honesta é privacidade diferencial ou agregação no tempo, com o nosso recibo certificando o contrato.
Uma previsão nossa caiu
No GPS, prevíamos que metade da variância bastaria; caiu. Está registrado no repositório, com o número.
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- Dados públicos com licença aberta: AMPds2 (Canadá, 2 anos a 1 min), REFIT (6 casas, Reino Unido), Low Carbon London (200 casas, 1 ano a 30 min), Shanghai T1DM/T2DM (117 internações com diário de refeição), WEUSEDTO (água, Nápoles), Geolife (GPS, 973 trechos rotulados).
- LGPD, art. 12 (dado anonimizado). ANEEL, Consulta Pública 1/2026 (medição inteligente).
- Demo de glicose: tempo na faixa-alvo certificado.