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Contrato · três vereditos

Três vereditos, por escrito.

Quase todo contrato diz o que acontece quando o fornecedor cumpre e quando não cumpre. Quase nenhum diz o que acontece quando a medição não consegue decidir. É justamente ali, perto do limite, que as brigas começam. Esta página mostra como escrever as três saídas, com o limite, a margem de erro e a folga combinados antes de medir.

Espécime · um gerador de cláusula para o seu caso

Um ponto de partida para a conversa com o jurídico, não um texto pronto para assinar. A régua mostra onde cada valor medido cairia: à esquerda e à direita as faixas que decidem, no meio a faixa em que a medição não decide.

O problema

Dois valores mentem na fronteira.

Toda medição tem margem de erro. Se o contrato só conhece "cumpre" e "não cumpre", um resultado que cai perto do limite recebe um dos dois nomes, e qual deles depende do acaso daquela medição. Meça de novo e pode dar o outro.

Isso não é hipótese. Num estudo nosso, trocar só a semente do sorteio usado para calcular a margem, sem nenhum dado novo, mudou 3,6% dos vereditos que pareciam decididos. Nenhum deles tinha sido decidido pela medição; tinham sido decididos pelo sorteio.

Perto da linha, quem escolhe qual medição entra no relatório escolhe o veredito. O terceiro valor tira essa escolha da mesa: quando a faixa de erro atravessa o limite, o contrato já diz o que fazer, e ninguém precisa brigar pelo nome.

O MESMO SISTEMA, CINCO MEDIÇÕES limite cumprecumprecumprenão cumprecumpre indecidívelindecidívelcumpreindecidívelindecidível DOIS VALORESTRÊS VALORES um "não cumpre" por sortenenhuma contradição
Esquema. O ponto é o valor medido; a barra é a margem de erro. O laudo de dois valores olha só o ponto e se contradiz; o de três olha a barra inteira.
Anatomia

Seis coisas que a cláusula precisa dizer.

  1. O limite, sem ambiguidade

    "Até 200 ms" inclui o 200? "A partir de R$ 199" inclui o 199? Num caso do caderno, um código tratou "a partir de" como "acima de" e cobrou frete de quem não devia. Escreva "no máximo" ou "no mínimo", com o número.

  2. A margem de erro do método

    Quanto a medição pode errar para cada lado, declarada pelo método antes de medir. Uma margem que só aparece depois do resultado é negociação, não medição.

  3. A folga

    Quantas vezes a margem o resultado precisa estar longe do limite para decidir. Uma vez é o mínimo; mais que isso protege quando a própria margem é incerta.

  4. Quem mede e com que dados

    Um terceiro, quem contrata, ou o fornecedor com os dados abertos. Se quem é medido mede sozinho e fecha os dados, a cláusula vale o que ele quiser.

  5. Quando o veredito é declarado

    Com que dados, em que janela, com carimbo de tempo. O resultado sai junto com a margem e a folga usadas, para que qualquer um refaça a conta.

  6. O que fazer no indecidível

    Medir de novo, com mais amostras, em prazo curto, com quem paga definido. E, enquanto isso, nenhuma multa e nenhum aceite. É a cláusula que evita a briga.

A armadilha

Folga escolhida depois é trapaça com outro nome.

A tentação é deixar a folga em aberto e escolher quando o resultado chegar. Quem está perdendo sempre acha uma folga que o salva. Por isso ela tem de estar no contrato antes da primeira medição.

Medimos isso numa ferramenta nossa, o atestado de sensor: exigir folga de 1,5 vez a margem não mudou nada; exigir 2 vezes zerou os vereditos que viravam por acaso. Pegar o 2 porque ele deu o resultado bonito seria justamente o erro. Tentamos três caminhos para chegar ao número sem olhar o resultado: dois deram valores parecidos (1,4 e 2,0) e o terceiro não apontou valor nenhum.

A lição prática: escolha a folga pelo custo de errar, não pelo resultado. Se errar para o lado do fornecedor é caro, folga maior do lado dele. E escreva o número.

Exemplos

A mesma estrutura, cinco contratos.

ContratoO que se medeDe onde vem a margemO que fazer no indecidível
Tempo de respostatempo típico de uma operação, em milissegundosa variação entre execuções repetidasnova rodada com mais execuções, em horário combinado
Disponibilidadefração do mês em que o serviço respondeua frequência das sondas e as falhas de mediçãocruzar com os registros das duas partes antes de aplicar redução
Obra ou equipamentouma grandeza de aceite, como a resistência do concreto ou o desempenho de uma antenaa precisão do instrumento e o número de amostrasmais amostras do mesmo lote, por laboratório escolhido pelas duas partes
Modelo de IAacerto num conjunto de teste combinadoo tamanho do conjunto e o sorteio dos casosconjunto maior, escolhido por quem contrata e não visto pelo fornecedor
Sensor pago por usose o sensor está vivo, pelo tamanho dos dados que ele mandao chuvisco natural que o fabricante declarao período não gera cobrança, e o sensor é conferido na próxima visita

O caso do sensor vem de uma entrada do caderno: um sensor vivo nunca manda dados menores que o próprio chuvisco, e um travado manda quase nada. Julgue o que vaza, não o que declara.

O preço do terceiro valor

O indecidível pode ser grande.

Um laudo honesto pode sair com muita coisa indecidível. Num estudo nosso sobre desempenho de programas, das diferenças que um teste estatístico chamou de reais, 81,6% não sustentavam decisão contra o limite combinado (entre 78,9% e 84,2%, dependendo do sorteio).

Noutro caso, um laudo de antenas, só 0,18% dos pontos ficava perto da linha, porque as antenas estavam, no meio, a 7,14 dB do limite (numa varredura sintética). A diferença não é o método: é onde os casos moram.

Se o indecidível é frequente no seu contrato, isso é informação: ou a medição é imprecisa demais para o limite escolhido, ou o limite está bem em cima do funcionamento normal. As duas coisas se consertam antes de assinar, não depois da primeira briga.

ONDE OS CASOS MORAM casos amontoados perto do limite: muito indecidível casos longe do limite: quase nada indecidível limite
Esquema. A faixa âmbar é a zona em que a medição não decide. O tamanho do indecidível é o tamanho da parte dos casos que cai dentro dela.
Limites

Onde isso pode enganar.

Não é conselho jurídico

O gerador monta uma estrutura, não um texto para assinar. Cada contrato precisa de revisão por quem responde por ele, com as leis e as normas do seu setor.

A margem pode ser declarada pequena demais

Quem declara uma margem menor que a real torna tudo decidível, e decide por acaso. A margem precisa vir do método, com um jeito de conferir que ela é honesta.

O indecidível pode virar esconderijo

Um fornecedor com medição ruim pode ficar para sempre na faixa do meio. Limite quantos indecidíveis seguidos são aceitos antes de a medição passar para um terceiro.

Quem mede muda tudo

Com os dados fechados na mão de quem é medido, nenhuma cláusula de três valores protege. Dados abertos, ou um terceiro, vêm antes da folga.

A seção

Para usar na prática.

Três palavras desta página
Três vereditos

Cumpre, não cumpre e indecidível. O terceiro diz onde a medição parou de decidir. →

Folga

Quantas vezes a margem o resultado precisa estar longe da linha para decidir. Declarada antes. →

Régua

O que decide se algo passou. Aqui, o método de medição com a sua margem. →

Conversar

Isto se aplica ao seu caso?

Conte em duas linhas o que você precisa decidir ou medir. A primeira conversa serve para ver se a medição resolve o seu caso, e, se não resolve, dizemos.

Conversar pelo WhatsApp algorithms@stickybit.com.br Stickybit · Porto Alegre, desde 2004

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Fontes