Criptografia homomórfica · Medição

Maturidade do FHE em 2026: o que dá para usar, o que ainda não dá

A pergunta "FHE já está pronto?" não tem resposta única — tem uma resposta por carga de trabalho. Aqui estão as três faixas, com o número medido de cada uma, e os cinco pontos que precisam evoluir para a fronteira se mover.

Análise · números medidos nesta bancada Os custos abaixo saíram de uma bancada própria (Apple M2, single-thread, Lattigo v6.2.0, média de 3 repetições) — a mesma que produziu A fronteira do FHE. Esta análise é a camada seguinte: não onde a criptografia para de funcionar, mas o que dá para colocar em produção hoje, o que fica na fronteira e o que não é questão de esperar a próxima versão da biblioteca. Inclui uma medição nova, de integridade, que muda a conta de qualquer projeto com servidor não confiável. Números de terceiros estão marcados como tal.

1O que já fecha hoje

Existe um conjunto real de cargas de trabalho em que FHE é uma decisão de engenharia sóbria, não uma aposta. Todas elas compartilham a mesma forma: lote grande, circuito raso, decisão no cliente.

CasoPor que fechaCusto medido
Agregação em lote
soma, média, contagem, votação
circuito raso, nenhuma decisão sob cifra produto interno 2048-dim: 115 ms
Camada linear final de ML o pesado roda em claro no dispositivo; só a densa final vai cifrada idem
Lookup privado até 10⁴–10⁵ é o padrão de PIR que Apple e Microsoft já usam em produto 10⁴: 1,2 s / 20 MB
10⁵: 14,1 s / 196 MB
PSI · interseção de conjuntos linear, com constante boa medido até 10⁶–10⁷
Lógica pequena e ramificada TFHE profundidade ilimitada, ~54 ms por porta 1 comparação: 1,74 s
Blockchain confidencial dado minúsculo e valor alto por transação fora da bancada — mainnet desde dez/2025

Fora dessa forma, o orçamento não muda em percentual: muda em ordem de grandeza.

2A fronteira: funciona, com condição

Profundidade acima de 8 multiplicações. Passou do orçamento, entra bootstrapping: 1 min 18 s por operação a 128 bits reais, com 10,26 GB de chaves de avaliação. Funciona — mas isso define "job em lote", não "latência de API".

Misturar aritmético e lógico no mesmo circuito. A troca de esquema existe e foi medida: 13,9 s por slot. Compensa para pouquíssimas decisões, e não mais que isso.

Consulta pontual. Um único valor cifrado tem expansão de 229.428×. FHE recompensa lote e pune consulta — o inverso da intuição de quem vem de banco de dados, e a origem da maior parte das arquiteturas mal dimensionadas.

3O que não dá — e não é questão de esperar

OperaçãoCusto medidoO problema
Argmax de 1.000 sob cifra130 h a 128 bits reais. E a precisão colapsou para 3 bits em algum slot do lote: é lento e errado
Índice cifrado em 10⁷19 GB se o servidor saltar para a linha certa, o padrão de acesso vaza o índice — toda a tabela precisa ser tocada
Comparar cifrados muito próximos< 2⁻³⁰ zona cega: operação sem resultado definido
Rede profunda fim a fim ReLU custa um sign; por isso se retreina a rede com

O padrão correto para decisão é sempre o mesmo: devolva os scores cifrados e decida em claro no cliente. Do lado de quem já tem a chave, a mesma decisão custa microssegundos — e não custa privacidade nenhuma, porque quem decide já é quem pode decifrar.

Há um ponto aqui que o material de fornecedor costuma embaçar: a diferença entre os dois grandes ramos — CKKS/BGV para aritmética em lote, TFHE para lógica — é de 6×10⁶ num sentido e 170× no outro. Essa diferença é estrutural, não de maturidade. Aceleração de hardware desloca os dois; não os aproxima.

4Hardware: a promessa ainda não é silício

O programa DPRIVE da DARPA gerou uma leva de ASICs dedicados. A Niobium fechou com a Semifive para fabricar em Samsung 8 nm; a Fabric Cryptography levantou US$ 33 milhões; a Optalysys, cerca de US$ 30 milhões para uma abordagem fotônica; a Intel segue com o Heracles. É investimento real e a direção está certa.

O cuidado que economiza um trimestre

Os 5.000× a 17.000× citados nessa geração são simulação e projeção, não silício embarcado e medido. Ao receber um benchmark de fornecedor, pergunte o logN: nesta bancada, a diferença entre logN=13 (parâmetro de brinquedo) e logN=16 (128 bits reais) é de ~40× — e quase nenhum material publicado diz qual dos dois está citando.

5O gargalo que o silício não resolve

Nos casos de lookup, o limite medido não é CPU — é banda. Um universo de 10⁶ registros custou 1,91 GB de tráfego; 10⁷ projeta 19 GB. Acelerador de criptografia melhora o tempo de computação e não move um byte a menos pela rede.

Ou seja: para uma parte relevante dos casos de uso, o silício em desenvolvimento está atacando a metade errada do problema. A linha que ataca a metade certa é o transciphering, e ela ainda não está madura.

6O custo que ninguém orça: integridade

Aqui está a medição nova, e é a que mais muda decisão de arquitetura. FHE dá confidencialidade, não integridade. A mesma maleabilidade que permite computar sobre o cifrado impede detectar um resultado adulterado.

O ataque não precisa de nada exótico. A aplicação decifra e valida ("o resultado tem que estar nesta faixa"). Se não estiver, ela reage — erro na tela, retry, log, código HTTP, latência diferente. Essa reação é um bit, e o servidor a observa. Somando um valor público ao cifrado e lendo o aceita/rejeita, o servidor recupera o dado em claro:

MediçãoValor
Consultas para recuperar um valor de 16 bits46,7 ± 1,3
Taxa de sucesso24/24 segredos
Tempo total do ataque, por valor79 ms
Detecção por slots-canário — adversário cego100%
Detecção por slots-canário — adversário dirigido a 1 slot0,37%

47 requisições. Nenhuma chave é atacada; o servidor nunca decifra nada. E a defesa barata resolve o adversário errado: o canário custa 0,39% dos slots e pega 100% de quem adultera às cegas, mas só 0,37% de quem escolhe onde mexer — que é exatamente c/n, como a teoria prevê. Canário é higiene, não integridade.

O termo não orçado

Integridade de verdade exige prova (ZKP sobre a computação homomórfica) ou hardware atestado. O preço publicado varia de ~2% a mais de 1000% conforme a primitiva — três ordens de grandeza. Enquanto isso não fechar, todo projeto com servidor potencialmente malicioso carrega um custo cujo tamanho plausível vai de desprezível a proibitivo.

7CKKS e o resultado decifrado

Um ponto de segurança que raramente aparece em material comercial: para esquemas aproximados como o CKKS, a segurança IND-CPA clássica não basta se o resultado decifrado for compartilhado com terceiros.

É uma pergunta de triagem por si só: o resultado decifrado é compartilhado com terceiros? Se for, o parâmetro muda — e o custo é pequeno, desde que a pergunta seja feita antes de gerar as chaves.

8Padronização — e o erro silencioso

O campo saiu do vácuo normativo: a ISO/IEC 28033 está em curso com a Parte 1 (geral) e a Parte 3 (CKKS) em Draft International Standard, a Parte 2 (BGV/BFV) com votação até abril de 2026, e as Partes 4 (tabelas de lookup) e 5 (troca de esquema) em elaboração. O NIST acompanha pelo projeto de criptografia com preservação de privacidade.

O que ainda falta é o que evitaria o modo de falha mais perigoso que medimos:

Com orçamento de 4 níveis, o BFV acerta até a 7ª multiplicação e erra na 8ª — em silêncio. Nenhum erro, nenhuma exceção: devolve 28323 onde a resposta é 282. É a combinação mais perigosa que existe em produção, e a razão pela qual o circuito precisa ser conhecido antes das chaves.

9A regra de bolso

FHE fecha quando cinco condições valem juntas: lote grande · circuito raso (≤ 8 multiplicações) · decisão no cliente · universo de índice pequeno · servidor honesto-mas-curioso.

Tire uma, e o custo muda de ordem de grandeza. Tire a última, e o custo é desconhecido.

É por isso que a resposta para "FHE já está pronto?" nunca é sim ou não. Ela é: depende de qual das cinco você não tem — e essa é uma conversa de uma hora, com números, não de seis meses de prova de conceito.