A promessa é sedutora: se o compressor descarta detalhe, bastaria comprimir mais — abrir a tolerância ε — para proteger quem está do outro lado do medidor. Testamos a promessa em cinco canais reais: energia a 1 minuto, energia a 30 minutos, glicose contínua, água e GPS.
Ela morre em quatro. No quinto, só sobrevive com três ressalvas que inviabilizam a promessa como estava escrita. E o que sobrou de pé é mais útil do que ela: o laudo que mede o vazamento junto com o contrato — o número que o art. 12 da LGPD pede e que hoje ninguém fornece.
Um compressor com erro garantido — o TUBE — desenha um tubo de tolerância ±ε em volta do sinal e só transmite quando o sinal rompe o tubo. É um portão de ruído: o tremor pequeno (a geladeira ciclando) fica calado; a chaleira de 3 kW rompe e fala. Cada bit transmitido é uma surpresa do sinal em relação ao modelo — bits são fatos.
Daí a promessa: se abrir o ε apaga detalhe, apagaria também o hábito — a que horas você acorda, quando toma banho, quando a casa fica vazia. Um número só, já presente no contrato de faturamento, entregando dois compromissos: a conta certa e a rotina protegida. Era bom demais. Fomos medir.
Cada canal foi medido com o mesmo desenho de três peças — e, antes de rodar qualquer número, escrevemos no repositório os critérios de morte: o que teria que acontecer para a tese morrer. Quando uma previsão nossa caiu (e caiu), está registrado.
O que o canal precisa entregar: a soma mensal da fatura (classe B do INMETRO: 1%), o tempo-no-alvo da glicose, os litros do mês, a distância da viagem. Com um recibo de soma de ~2 bytes/dia, o contrato fica exato em qualquer ε.
Uma feature só, sem treino, sem modelo: o desvio-padrão de uma janela de 15 minutos, ou a fração diurna do consumo. Se esse atacante já enxerga, atacantes de verdade enxergam a partir daí — nosso número é sempre um piso de vazamento, nunca um teto.
A verdade que o atacante nunca vê: circuitos submedidos (a lavadora estava ligada?), o diário de refeições do paciente, o registro de cada torneira, o modo de transporte rotulado. O placar é a AUC: 0,5 = moeda ao ar; 1,0 = acerto perfeito.
Dados: AMPds2 (casa real, 2 anos a 1 min, Canadá) · REFIT (6 casas, Reino Unido) · Low Carbon London (200 casas × 1 ano a 30 min) · Shanghai T1DM/T2DM (117 internações com diário de refeição) · WEUSEDTO (água, Nápoles) · Geolife (GPS, 973 trechos rotulados). Todos públicos, todos com licença aberta, todos citados no repositório.
Na casa do AMPds2, o atacante barato parte de AUC 0,699 no dado cru. Três coisas acontecem quando o ε gira — e nenhuma delas está no folheto da promessa:
Repetimos tudo em 6 casas reais do REFIT. Critério declarado antes: se as 6 curvas colapsassem numa forma única após normalizar pelo porte da casa, existiria uma fórmula ("para casas assim, use ε assado"). O spread medido foi 0,71 contra um limiar de 0,10 — sete vezes acima. Não há fórmula: cada casa tem sua curva, o mergulho migra de posição, e numa das casas o culpado era uma carga que nem estava no inventário de aparelhos submedidos. A decomposição por correlação mostrou quem manda: nas casas 2 e 11, espremer o stream aumenta a correlação do que sobra com a chaleira (ρ 0,37→0,56 e 0,47→0,62) — a compressão destila o evento humano.
Em 200 casas de Londres, a 30 minutos (a resolução que os medidores brasileiros vão reportar), o atacante tenta algo mais simples: distinguir dia útil de fim de semana pela fração diurna do consumo — a rotina semanal. No cru, 1 em cada 4 casas é identificável (AUC > 0,7). E girando o ε até valores maiores que a própria leitura mediana… a AUC mediana vai de 0,587 para 0,572. Nada.
O motivo é estrutural, não acidental: a feature de rotina é um agregado de ordem 1 (uma fração de somas), e o deadband limita o erro pontual. Somas atravessam o ε quase intactas — é exatamente por isso que a fatura sobrevive a qualquer ε. Fatura e rotina moram no mesmo subespaço matemático. O mecanismo que preserva a conta preserva o vazamento.
117 internações reais, diário de refeições como gabarito. Detectar refeição parte de AUC 0,798 — e ainda dá 0,640 quando ε=50 mg/dL já destruiu o contrato clínico (96,8% do tempo-no-alvo indecidível). Refeição é excursão de 50–150 mg/dL: atravessa qualquer ε útil.
A inversão boa: hipoglicemia é detectada com 100% de sensibilidade em todo ε, por construção do bound. O que o codec guarda por último é o que a medicina exige.
Um apartamento com cada torneira submedida. O chuveiro resiste como previsto (AUC 0,963 quando o vaso já caiu a 0,640) — mas os eventos íntimos só ficam irreconhecíveis num ε em que a soma diária de litros já erra 100%. A zona onde a privacidade chega coincide com a morte do contrato.
Bônus involuntário: o agregado publicado do dataset está corrompido na fonte (amostras negativas, magnitudes de 10⁸) — detectado pelo nosso próprio pipeline de sanidade.
973 trechos rotulados (a pé vs motorizado). O modo de transporte mora no nível da velocidade — e nível é o que o deadband preserva. Com ε=10 m/s a distância contratada já erra 62% e o atacante ainda acerta com AUC 0,923.
Para quem vende "telemática com privacidade por degradação de resolução": o produto que você anuncia não existe. Medimos.
E o mesmo fenômeno esquisito do elétrico reapareceu no GPS: a feature de variância melhora para o atacante em ε intermediário (0,864 → 0,888) antes de cair — o deadband achata o pedestre para zero exato enquanto o carro ainda cruza o limiar, aumentando a separação. Terceira vez que o "denoiser grátis" aparece. Nenhum contrato pode prometer "mais compressão = mais privacidade": a curva não é sequer monotônica.
| Canal | Contrato | Segredo | Veredito do dial |
|---|---|---|---|
| Energia · 1 min | soma mensal (ordem 1) | atividade fina (ordem 2) | funciona — mas por casa, com piso, e só com recibo |
| Energia · 30 min | soma mensal (ordem 1) | rotina semanal (ordem 1) | não faz nada — mesma caixa |
| Glicose (CGM) | tempo-no-alvo | refeição (excursão grande) | não protege — contrato morre primeiro |
| Água | litros/dia (ordem 1) | eventos íntimos | não protege — morrem juntos |
| GPS / telemática | distância (ordem 1) | modo (nível = ordem 1) | não protege — distância morre antes, sempre |
A lei que fecha as cinco medições: privacidade por ε exige que o segredo more numa ordem ou escala diferente da do contrato — e em quase todo canal real, segredo e contrato moram juntos.
Corolário prático: quem quer apagar rotina não gira o botão da amplitude — gira o botão do tempo (reportar somas diárias com recibo em vez do stream). E quem afirma que "dado comprimido / agregado está anonimizado" está fazendo uma afirmação empírica que, nas nossas medições, é falsa por estrutura em quatro de cinco canais.
A promessa morreu; o instrumento que a matou é o produto. Para um canal comprimido com tolerância X, o laudo diz com número: (a) o que o contrato garante — soma, tempo-no-alvo, distância, com recibo assinado no razão; (b) o que vaza, para qual detector, nas duas ordens; (c) o que esse mecanismo nunca vai proteger. É uma frase de venda negativa — e por isso crível: sobrevive a auditoria.
O gancho jurídico é direto: pelo art. 12 da LGPD, dado "anonimizado" só escapa da lei se não for reversível por meios razoáveis. Um detector trivial, de uma feature, sem treino, que reidentifica rotina com AUC 0,80 é a definição operacional de "meio razoável". A curva AUC×ε é o número que decide o art. 12 — e hoje essa assinatura é dada no adjetivo. O mesmo laudo é o anexo técnico que falta no relatório de impacto (RIPD) de qualquer rollout de medição inteligente, e a resposta pronta para a pergunta que a consulta pública da ANEEL (CP 1/2026) deixou aberta: requisito de privacidade se declara com curva medida, não com resolução.
Nossa AUC é um piso de vazamento contra um detector declarado — nunca um teto, nunca garantia. Quando o comprador precisa de garantia matemática, a resposta honesta é privacidade diferencial ou agregação temporal — com o nosso recibo certificando o contrato. Os números não generalizam para fora dos datasets; as leis estruturais sim, porque são álgebra, não estatística.
Todos os dados são públicos e citados; os critérios de morte foram escritos antes de rodar; as previsões que caíram estão registradas (a metade da variância no GPS caiu — está no repositório com o número). O detector é reproduzível por qualquer um: é essa reprodutibilidade que transforma a curva em evidência, e não em opinião.
Essa é uma afirmação empírica — e dá para medi-la em dias, com o seu canal, o seu ε e um detector declarado. O resultado é um anexo que o encarregado pode assinar: para o RIPD, para o art. 12, para a especificação do edital.