Uma urna que conta sem abrir os envelopes.
Imagine cinco hospitais mandando, cada um, um envelope lacrado com o número de pacientes que tiveram infarto no ano. A pessoa que recebe os envelopes consegue, por mágica, somar o que está dentro sem romper nenhum lacre, e devolve um envelope lacrado com o total.
Quem tem a chave abre esse último envelope e lê: 1.284 pacientes. Ninguém no meio do caminho viu o número de cada hospital. Nem o total.
A criptografia homomórfica é essa mágica, feita com matemática. O nome técnico assusta; a ideia, não: fazer conta com o dado trancado. É a mesma família de matemática das novas fechaduras que resistem a computador quântico.
Três usos na saúde, com o custo medido.
Testamos cada conta na nossa bancada, num computador comum. Separamos o que dá para colocar em uso hoje, o que dá com uma condição e o que ainda está na fronteira. Preferimos dizer “ainda não” a vender o que não fecha.
Estudo entre hospitais
Soma, média e contagem de pacientes de vários hospitais, sem que um veja os dados do outro. Contas curtas, feitas em lote: o melhor caso para essa técnica.
Somar valores trancados: menos de 1 milésimo de segundo.
Risco calculado sem ver o exame
O risco de uma doença a partir de glicose, peso, idade e pressão, com uma fórmula simples. Funciona se o resultado voltar trancado e o próprio paciente, ou o médico com a chave, ler e decidir.
Uma fórmula com 2.048 valores: 115 milésimos de segundo.
Genética trancada
Ver se marcadores de risco aparecem no DNA do paciente. Com poucos marcadores e em lote, dá. Procurar livremente no genoma inteiro, trancado, ainda é lento demais.
Cada comparação: 1,74 segundo.
Medições da Stickybit num Apple M2, uma linha de execução, biblioteca Lattigo v6.2.0, média de 3 repetições. Detalhes em 20 aplicações de FHE e em Maturidade do FHE em 2026.
Cada conta deixa o vidro um pouco mais embaçado.
O dado trancado carrega, de propósito, um pouco de “sujeira”: é ela que impede alguém de espiar. Cada conta aumenta essa sujeira. Somar quase não suja; multiplicar suja bastante.
Depois de umas oito multiplicações seguidas, o vidro fica embaçado demais e o resultado sai errado, sem aviso. Na nossa bancada, a sétima conta deu certo; na oitava, a resposta era 282 e voltou 28.323.
Por isso a gente desenha as contas do estudo antes de começar. Somas, contagens e médias ficam muito longe do limite. Modelos longos precisam de uma “faxina” que custa mais de um minuto por vez.
Resultado: 282 · certo
O dado não sai aberto de casa.
Com a técnica
- Cada hospital tranca no próprio computador, antes de mandar qualquer coisa.
- O servidor do estudo não tem a chave. Se for invadido, o que vaza são números trancados.
- Só o resultado combinado é aberto, por quem tem a chave e foi autorizado.
- Menos contratos de troca de dados para negociar, porque ninguém recebe o dado do outro.
O que continua valendo
- Comitê de ética e LGPD: consentimento, finalidade e aprovação seguem iguais.
- Grupos muito pequenos ainda podem identificar alguém pelo resultado; o estudo define um tamanho mínimo.
- Quem guarda a chave precisa ser combinado entre os hospitais antes de começar.
Primeiro a conta, depois a chave.
Que número vocês querem ao final? Somas, médias, contagens, uma fórmula de risco. Dizemos se fecha hoje, com condição ou ainda não.
Desenhamos as contas para ficarem longe do limite e combinamos com os hospitais quem guarda a chave e o tamanho mínimo dos grupos.
Rodamos o estudo inteiro com dados inventados e comparamos com a conta aberta. Só segue quando os dois batem.
Cada hospital instala um programa pequeno que tranca os próprios dados. O resultado chega à coordenação, e só a ela.
O que sempre perguntam.
O servidor vê alguma coisa?
Não. Ele recebe os números trancados, faz as contas com eles trancados e devolve o resultado trancado. Só quem tem a chave, por exemplo a coordenação do estudo, abre o resultado.
Isso substitui o comitê de ética e a LGPD?
Não. Diminui quem vê o dado e o que vaza se algo der errado, o que ajuda muito na conversa com o comitê e com o encarregado de dados. Consentimento, finalidade e aprovação continuam valendo.
Fica lento?
Para somas, contagens e médias, não: na nossa bancada, somar valores trancados levou menos de 1 milésimo de segundo. Fica caro quando a conta é longa ou precisa decidir algo sem abrir o dado.
E se um hospital mandar número errado?
A técnica protege o segredo, não a honestidade de quem manda. Por isso o estudo inclui conferências combinadas, como faixas plausíveis e totais que cada hospital já publica.
Resiste a computador quântico?
Sim. Ela se apoia no mesmo tipo de problema matemático das novas fechaduras pós-quânticas, que é considerado difícil também para computador quântico.
Onde isso pode não servir.
Conta longa
Modelos com muitas multiplicações seguidas passam do limite e precisam da “faxina”, que custa mais de um minuto por vez. Vira trabalho de madrugada, não resposta na hora.
Decidir sem abrir
Se a decisão (“aprova ou não”) precisa ser tomada com o dado trancado, o custo sobe muito. O caminho barato é devolver o resultado trancado para quem tem a chave decidir.
Busca pontual
Consultar um único registro de cada vez é caro: o dado trancado fica centenas de milhares de vezes maior. Funciona bem em lote, mal em consulta avulsa.
Os hospitais são inventados
Os números do espécime são de exemplo. Os custos citados são medidos na nossa bancada, não num estudo real entre hospitais.
Conte a pergunta do seu estudo.
Que número vocês querem ao final e quantas instituições participam. Em até 24 horas úteis dizemos se fecha hoje, com condição ou ainda não, em português e sem jargão.
- Custos de soma, fórmula com 2.048 valores, comparação, limite de multiplicações e “faxina” (bootstrap): bancada Stickybit, Apple M2, uma linha de execução, Lattigo v6.2.0, média de 3 repetições, 2026. Detalhes em /fhe/maturidade/.